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domingo, novembro 15, 2009

Aplicação prática do Plano Nacional de Leitura


Se falares, não levas livro

Só se podem requisitar livros de quinze em quinze dias. A escolha tem que ser feita em completo silêncio. Caso contrário vem a penalização: “Falaste. Para castigo não levas livro.”
Articulação com as actividades da turma, isso acabou. Cada um para o seu lado. As crianças têm que ouvir e mais nada.
A interacção, a associação com outras leituras, com outros saberes, não é para ali chamada.
Surge ainda o espanto, perante a ignorância de crianças de 9 anos – primeiro ciclo do ensino básico:
“ Não conhecem «A mensagem»?!
Não sabem quem foi o Ulisses?! “

Esta é a professora “bibliotecária” escolhida pela Directora, para coordenar a actividade de uma biblioteca escolar do primeiro ciclo do Ensino básico.
Eis como se aplica o Plano Nacional de Leitura, em escolas tuteladas por Directores autonómicos, ao ponto de poderem livremente escolher quem contratam para desempenhar funções tão importantes, como é a de gerir um centro de Recursos, como é uma Biblioteca Escolar.
Não é identificada a escola por razões óbvias; as razões que hoje fazem os professores medirem bem tudo quanto possam dizer.
Carmelinda Pereira

quarta-feira, abril 08, 2009

Pensar uma educação melhor

Que luta dos professores?

6 de Abril de 2009

A simpatia natural que me desperta um movimento social como o dos professores é temperada pelo contínuo autoquestionamento que essa profissão sempre implicou para mim. Por Pedro Branco

Fico sempre um pouco aflito quando sou levado a pronunciar-me sobre a classe docente, à qual também pertenço, com muito orgulho.

Em primeiro lugar porque confesso não estar muito por dentro de toda esta teia que andam a montar sobre os professores, sobretudo no que se refere à Avaliação de Desempenho e ao Estatuto da Carreira Docente, o qual, aceitemos, ainda é o nosso garante pedagógico para o que podemos ou não desenvolver dentro das nossas salas de aula. De facto, tenho assumido uma postura algo incrédula e até de algum (possivelmente infundado, infeliz ou injusto) distanciamento em relação a esse espantoso movimento que de repente se levantou e que aparentemente uniu e aproximou estes profissionais. A simpatia natural que me desperta um movimento social como o dos professores, contra a empresarialização da Escola Pública e pela dignidade da nossa profissão, é temperada pelo contínuo autoquestionamento que esta profissão sempre implicou para mim, e acho que deveria implicar para os outros. Afinal, quando se fala dos professores, está-se a falar de quê?

A avaliação, sendo de desempenho, deveria, a meu ver, assumir uma vertente formativa e formadora, através de mecanismos e instrumentos sérios e competentes de promoção de um verdadeiro profissionalismo, esse sim, em defesa da escola pública, que sempre tão necessitada esteve, desde há muito, da força e da energia dos seus professores! Que o digam os alunos… tão cheios de histórias para contar, se pudessem… Acredito que, se fossem ouvidos, mais do que enumerar as atrocidades, humilhações ou crueldades a que muitas vezes são sujeitos por parte de alguns docentes, iriam exigir professores mais empenhados e capazes de assumir com brio a difícil tarefa de ensinar e de se responsabilizar pelos insucessos dos seus alunos, já que são obrigados a frequentar este Sistema Educativo, que teima em não evoluir e em fazer dos primeiros anos de cada um uma espécie de Calvário a que todos têm de estar sujeitos… Não creio ser esse o tom geral dos Conselhos de Docentes espalhados por essas escolas, muito menos agora!

Não falo de cor, nem sequer de barriga cheia - são muitos os relatos de colegas que ilustram esta sensação de um cansaço logo à nascença:

• Pode conceber-se que professores acabadinhos de formar estejam já a pensar na Reforma, quando deveriam era agradecer(-se) pelo facto de terem podido chegar a uma das profissões mais nobres da vida? Pode imaginar-se quem sofre com tudo isso?

• Qual a explicação para o facto de, cada vez mais, vermos docentes a evitarem a utilização da sua ferramenta profissional de trabalhador intelectual (a escrita e a leitura), quer na sua postura diária (ao contrário, aliás, do que exigem aos alunos), quer quando inseridos em acções de formação (onde frequentemente estão contrariados), em que seria suposto utilizarem-na como factor essencial ao seu desenvolvimento?

• Que significado têm as práticas que assentam em repetições atrás de repetições, muitas delas quase exclusivamente livrescas, num ensino mais que ancestralmente desactualizado (que o digam as Psicologias ou as Ciências da Educação) onde os alunos são tratados como, e transformados em, meros consumidores de aulas pré-concebidas muitas vezes sem se saber bem por quem, ao invés de se apostar numa cultura de produção e de efectivo ensino, assente num clima de cooperação, de entrega, de proximidade, de dedicação e de verdade?

Sinceramente, custa-me tudo isto. Entre nós, professores, que nunca saímos da escola (primeiro como alunos e agora como docentes), há provavelmente quem deteste a escola. E quem ande a desperdiçar a sua energia, virando as costas aos alunos, apesar de serem eles a principal justificação para tão forte empenho nesta luta contra uma política que nos está a tentar destruir por dentro em quase todos os domínios da profissão. Está a mexer em demasiadas coisas…

Andam, de facto, a empurrar-nos para uma clausura, dentro de uma lógica completamente diferente daquela que, ao longo de anos e anos, sempre nos foi deixando mais ou menos descomprometidos, ao sabor do empenho e da vocação de cada um. Faz mal exigir aos professores que prestem contas do que fazem para salvar os alunos, de como trabalham, que valores estão por trás das suas práticas, quer para os responsabilizar, quer no sentido de os ajudar a melhorar o que fazem? Na minha opinião, teremos de lutar por um modelo que exija maior rigor e responsabilização no exercício da docência, criando um clima de confiança e de efectivo desenvolvimento profissional onde os professores se possam sentir seguros e acarinhados para colocarem ao serviço da Escola e dos alunos o seu empenho e amor pelo que fazem. Ao invés, parece-me, estamos a abrir caminho a desigualdades, injustiças, compadrios, corporativismos…, e temo que tudo isto não dê em nada e apenas estimule o lado esquivo do ser humano, sempre tão propenso a fugir do que o incomoda, através de mecanismos frequentemente pouco sérios, que inevitavelmente irão tornar mais frágeis ainda tanto os alunos como o Sistema Educativo.

E agora? Em que é que ficamos? Qual o lugar do pensamento pedagógico no meio deste movimento, desta luta? Não aquele de que se fala na Formação Inicial e que tão longe se apresenta dos candidatos, mas aquele que deveria estar na palma da mão de cada professor na sua relação com os alunos, com os colegas ou com o seu ofício… Não me esqueço, a este propósito (de um pensamento que na minha opinião andou e anda demasiadamente longe dos seus agentes…), do comentário de um colega, professor do Ensino Especial, quando questionado sobre esta problemática da Avaliação de Desempenho: “O mais importante para mim é que, por bem ou por mal, em 30 anos de serviço, foi a primeira vez que uma professora veio ter comigo preocupada com os seus alunos!”

Sei que as condições estão ainda mais difíceis para as grandes necessidades da Educação, que passam, como referi, por questões estruturais de fundo (ao nível da carreira, do currículo, da organização das escolas…), mas também por uma outra cultura docente, mais digna e determinada no sucesso dos seus alunos. Por isso é que, agora mais do que nunca, me parece essencial que os professores consigam agarrar esta oportunidade de redireccionarem a sua luta para dentro da sala de aula e não gastarem tantas energias fora dela. Desafio-vos, então, a serem todos EXCELENTES! Mesmo que queiram que só dê para alguns, uni-vos nas vossas escolas, na verdadeira batalha que é aquela que procura as melhores maneiras de dar a volta a um problema de aprendizagem com um aluno, ou a batalha do esforço da inclusão de todos em efectivas comunidades de aprendizagem, onde cada um aprende com cada um, onde cada elemento se torna imprescindível para o crescimento e desenvolvimento do outro. Não faltarão oportunidades para não ficarmos parados…

Já viram a força que não seria 100.000 a pensar numa Educação melhor?

http://passapalavra.info/?p=2381#more-2381

quinta-feira, novembro 27, 2008

Textos lúcidos

A situação actual dos professores exige que não fiquemos confinados na consciência
da gravidade do estado da Educação em Portugal, mas que esta consciência crítica se
traduza em acções concretas antes de vermos consumada a transformação da Escola em
instrumento de um sistema totalitário cujo objectivo último é produzir cidadãos
domesticados e submissos àquilo a que o governo do Partido Socialista chama
“modernidade”; termo por meio do qual os dirigentes do Partido Socialista traduzem uma
antiga expressão: «a bem da Nação».
Passado todo este tempo, é hoje muito claro que aquilo a que o Primeiro-Ministro de Portugal
chama “modernidade” e “modernização” mais não tem sido do que o pôr em movimento um
projecto totalitário que pretende servir-se dos instrumentos da vida democrática contra a
Democracia, não hesitando em tecer uma muito bem urdida teia para “trucidar”, diminuir,
perseguir ou destruir todos aqueles que resistem a ser tratados como cidadãos interditados.
A legislação do Governo do Partido Socialista no âmbito do Ministério da Educação
(Estatuto da Carreira Docente, modelo de gestão das escolas, legislação sobre os concursos
e o sistema de avaliação dos professores) constitui uma arquitectura do «espaço docente»
como espaço de menoridade mental: - ao entrar na Escola em que lecciona, o docente deve
ser despido da sua cidadania, do seu estatuto inalienável de pessoa humana para vestir o
“uniforme legislativo” oferecido e imposto a todos os professores, sem o qual o processo de
reificação dos alunos ficaria perigosamente comprometido.
Não são os professores profissionais a quem foi exigida uma formação científica e
pedagógica para poderem ser reconhecidos institucionalmente como professores? De facto,
todos sabem que os professores são detentores, pelo menos, de uma licenciatura e estágio
pedagógico. Acresce que ao longo da sua carreira docente, fizeram formação complementar
e foram avaliados várias vezes. Sempre que houve problemas de carácter científico e
pedagógico com alguns docentes, os competentes serviços da Inspecção do Ministério da
Educação actuaram e corrigiram o que houvesse a corrigir. Porém, para o Primeiro-Ministro e
a equipa por ele nomeada para o Ministério da Educação, foi com este governo do Partido
Socialista que começou a História da Educação em Portugal. Tudo o que é anterior a
Sócrates ou não existe ou está errado. Um sinal, entre muitos, do cínico desprezo pelo
efectivo trabalho de tantas gerações de professores e pelo seu inegável contributo para a
Educação em Portugal, é este simples facto: para o concurso a professor titular só contou o
tempo de serviço a partir do ano lectivo 1999/2000. Todo o trabalho docente anterior a esta
data é considerado lixo, porque o critério “científico” que identifica a realidade da excelência
da actividade docente não é o concreto trabalho dos professores desenvolvido durante todos
os anos da sua carreira; o que constitui a realidade como realidade é, para o Governo do
Partido Socialista, a legislação por ele produzida, mesmo sabendo que a realidade não se
deixa amordaçar pela falsa consciência.
O Primeiro-Ministro e a equipa por ele nomeada para o Ministério da Educação tratam os
Professores como ignorantes e como preguiçosos que não se preocupam com a evolução da
personalidade dos alunos, com a sua progressão na sólida e bem fundamentada aquisição de
conhecimentos, pessoas mal formadas para quem é indiferente a reprovação ou abandono
do sistema de ensino por parte dos alunos. Se os professores não fossem pessoas
incompetentes cuja actividade subversiva, pondo em perigo o Sistema de Ensino, visa
apenas a conquista de privilégios, o Ministério da Educação tomaria a iniciativa de dialogar
francamente, e sem reservas mentais, com os professores sobre os problemas e os desafios
que se colocam à Escola neste século XXI.
Mas os Professores, cada um ou organizados em Movimentos de Professores e
Sindicatos, são considerados um conjunto de pessoas pouco sérias, e é por isso que o
Ministério da Educação se viu obrigado a publicar uma legislação não para uma sociedade
normal com uma escola constituída por pessoas normais: - a leitura atenta da legislação
produzida pelo Ministério da Educação nunca põe em destaque a positiva consideração do
trabalho docente; toda a legislação relativa aos professores (Estatuto da Carreira Docente,
modelo de gestão das escolas, legislação sobre os concursos e o sistema de avaliação dos
professores) é ditada por uma angústia persecutória dos governantes que, coerente com um
registo esquizo-paranóide, pretende “proteger” o sistema escolar dos malefícios dos
professores recorrendo a um maniqueísmo próprio desta teocracia laica que assenta na
religião e culto do chefe, legitima a sua falsa consciência com a produção ideológica dos seus
teólogos seculares, e à qual não faltam os indispensáveis e subservientes turiferários. Quem
for “ateu” e não praticar a religião do Estado incarnada no culto do Chefe é exemplarmente castigado tal como já foram, entre outros cidadãos deste país, muitos professores, alguns
dos quais se puderam reformar antes de cumprir a pena.
Sendo a Escola um aparelho ideológico de Estado, o actual governo do Partido
Socialista queria que este indispensável e tão importante aparelho ideológico se tornasse o
seu monopólio. Mas para isso é preciso subjugar os professores desrespeitando-os na sua
elementar dignidade de pessoas, afogando-os numa insensata actividade administrativaburocrática
que lhes limite e dificulte o exercício pleno e competente da sua função docente.
Toda a arquitectura do aparelho legislativo em construção, por parte do Ministério da
Educação, tem como objectivo último fazer da Escola não um espaço de desenvolvimento
integral da pessoa humana mas o lugar da aprendizagem de reflexos condicionados que
mutilem a legítima expressão da liberdade reduzindo as suas fronteiras ao culto da
heteronomia e ao exercício exclusivo do pensamento unidimensional sem o que ficaria
comprometida a “modernidade” do Partido Socialista, isto é, «a bem da Nação».
O governo do Partido Socialista e esta equipa do Ministério da Educação sabem que a
propaganda, de cujas técnicas têm sido exímios agentes, não encontra nos professores
acolhimento ingénuo e imaturo. Eles sabem que os professores exercem, com competência e
dedicação, o trabalho docente que os constitui como «intelectual orgânico» na sociedade, e
por essa razão há que legislar de modo a controlar eficazmente o exercício livre, consciente e
crítico do pensamento, nem que para tal seja necessário utilizar a razão como instrumento
para negar a própria Razão. Os professores ainda são, na nossa sociedade, uma reserva da
razão crítica contra a alienação socio-cultural a que o poder político exercido pelo Partido
Socialista nos quer submeter fazendo do uso equívoco da linguagem e da leitura distorcida
do real a base do seu discurso. O governo do Partido Socialista fez da generalização da
alienação a condição da sua manutenção no poder e quer fazer do sistema de ensino um
«campo de reeducação». Mas para o conseguir tem de subjugar os professores exigindo-lhes
que não pensem e que fiquem reféns das tarefas burocráticas a que os querem acorrentar
para não terem tempo para pensar; exigindo-lhes que renunciem a usar o seu saber para
denunciar os gravíssimos erros que o Ministério insiste em manter e agravar.
Este governo finge esquecer que os professores não estiveram todos estes anos à
espera de que Sócrates fosse Primeiro-Ministro para finalmente perceberem que
necessitavam de se actualizar científica e pedagogicamente. Não estivessem já os
professores actualizados quando Sócrates chegou ao poder, e fossem eles incompetentes e
vendidos às conveniências do poder temporariamente vigente, e este Governo já teria
conseguido realizar “a reforma do sistema de ensino”, por outras palavras, já teria
conseguido transformar a Escola no seu instrumento de domesticação ideológica. O que irrita
este governo é o facto de os professores não serem aquilo de são acusados; o que irrita este
governo é o facto de os professores serem gente empenhada e competente que por sua
própria iniciativa se valoriza cientificamente; o que irrita o Primeiro-Ministro e a equipa do
Ministério da Educação é o facto de os professores não trocarem a sua dignidade e a
dignidade dos alunos pelos interesses e pelas estratégias de um poder cego que não
conseguindo corromper-nos nos ataca e persegue. Os professores também estão irritados
com as atitudes deste governo. Mas a razão da nossa irritação fica bem explicitada com o
pensamento (Pensamento 80) de Pascal: «Donde vem que um coxo nos não irrita e um
espírito coxo nos irrita? Porque um coxo reconhece que nós caminhamos direitos e um
espírito coxo diz que somos nós que coxeamos. Sem isto, sentiríamos por ele piedade, e não
cólera.» Será possível que a maioria da classe docente seja tão torta e perversa para ousar
assumir posições críticas sem fundamento? Que mais é preciso para compreender as razões
que levam o Primeiro-Ministro e o Ministério da Educação a afirmarem, repetidamente e com
alguma perfídia, que os professores coxeiam?
Por que razão o Primeiro-Ministro e o Ministério da Educação consideram que a
competência científica e pedagógica dos professores é uma ameaça para o sistema de
ensino? Por que razão entendem que o exercício inteligente da razão crítica é uma ameaça e
mesmo um perigo? Justamente porque são competentes não seriam as pessoas com quem
dialogar para equacionar adequada e rigorosamente os problemas da Educação? Justamente
porque o seu dia a dia na Escola é uma constante interaccção teoria-prática, ninguém melhor
do que os professores para pensar a problemática da Educação e definir estratégias de acção
adequadas às exigências que cada tempo impõe.
O Primeiro-Ministro e o Ministério da Educação, que atacam a classe docente
insidiosamente, pretendem convencer a opinião pública de que os grandes responsáveis por todos os males do Sistema de Ensino são os professores, como se fôssemos um bando de
irresponsáveis. Esta estratégia do Partido Socialista meticulosamente desenvolvida com o
objectivo de descredibilizar os professores no conjunto da opinião pública é um perigoso
sinal de imaturidade humana e política:
Só tem medo da Razão quem ainda não é adulto;
Só quem é intelectualmente imaturo, vivendo entrincheirado numa consciência unilateral
(que por ser unilateral é sempre falsa consciência), tem a irreprimível necessidade de
desvalorizar todos os pontos de vista que não coincidem com o seu.
Só quem confunde o entendimento com a razão é incapaz de pensar a alteridade como
interior à própria identidade.
A gravidade da actual situação exige que nós, professores, assumamos sem medo a
defesa da nossa dignidade e não nos escondamos numa «aparente indiferença» à espera que
passe a tempestade. Como diz Spinoza: «Aquele que é conduzido pelo medo e que faz o bem
para evitar o mal, não é conduzido pela Razão» (Ética IV, Proposição LXIII). Vivemos uma
situação socio-política em que os governantes até a alegria de ser nos querem confiscar; e
também por isso nos irritam, aplicando-se-lhes integralmente o seguinte Escólio da
proposição de Spinoza acima citada: «Os supersticiosos, que sabem mais censurar os vícios
que ensinar as virtudes e que não procuram conduzir os homens pela Razão mas contê-los
pelo medo de tal maneira que evitem mais o mal que amem as virtudes, não pretendem
outra coisa senão tornar os outros tão infelizes como eles; e, por conseguinte, não é de
admirar que eles sejam, a maior parte das vezes, insuportáveis e odiosos aos homens.»
Gostamos de ser professores e não podemos permitir que nos roubem a Alegria de ser quem
somos.
Esta hora é de luta!
Lutemos antes que seja tarde; não esperemos que o outro nos substitua e lute em nossa
vez.
E no meio da luta não azedemos, mantenhamos a poesia:
«Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.» (Miguel Torga –Voz Activa)

Um abraço solidário do José Jorge Teixeira Mendonça

sexta-feira, novembro 21, 2008

A vida no primeiro ciclo

Mais grave do que a burocracia …

Mais grave que a burocracia é:


· O mau estar entre os docentes, a prepotência, a subserviência, a suspeição e o medo…

· A humilhação pedagógica…

· A proibição de intervir, de propor, de participar no processo de construção da escola…

· A obrigação de ter que cumprir ordens sem sentido, há muito tempo ultrapassadas…


Mais grave que a burocracia… é o cansaço e o vazio, a perda da alma!


De facto, assim não se pode ser professor, porque ser professor é sobretudo ensinar a aprender, ensinar a descobrir e, mais do que tudo, é ensinar a sentir a vida, a lutar por objectivos, a fixar metas e tentar atingi-las, é ensinar que todas os passos positivos da nossa Humanidade foram o resultado de imensas tentativas e de imensos erros.

Ser professor é combinação de arte com sabedoria e com afectividade… Como quantificar esta profissão em grelhas competitivas?

Por isso, se fala muito da avaliação. Porque, de facto, ela é como que o laço que ata toda uma política educativa, onde o lema é “aprender a competir” e não “aprender a construir”.

Neste processo de luta – em que a esmagadora maioria dos professores se encontra envolvida – são as escolas do segundo e terceiro ciclos, bem como as do ensino secundário, que sempre aparecem em primeiro plano.

Por que não se fala no primeiro ciclo – antigo ensino primário – bem como nos jardins-de-infância?

Marçalo Grilo – o ministro da Educação que impôs aos professores o modelo de autonomia de gestão das escolas – afirmou, nessa altura, que se as escolas do primeiro ciclo ficassem integradas em agrupamentos verticais, seriam a cauda do cometa.

A vida só tem verificado esse prognóstico.

Estas escolas, mesmo quando muito grandes, com um número de docentes entre vinte e trinta, são sempre muito pequenas ao lado das dos outros graus de ensino.

Logo, quem sempre se afirma são os docentes das escolas numerosas. Experimentássemos colocar num Conselho Pedagógico uma esmagadora maioria de representantes dos docentes do antigo ensino primário e dos jardins-de-infância, e veríamos como seria apagada a posição dos que representassem os outros graus de ensino.

No entanto, nos jardins-de-infância e no primeiro ciclo do ensino básico – a cauda do cometa – as consequências das políticas do ME são bem nefastas, a avaliação é a mesma, e com uma agravante: quem manda nas escolas do agrupamento é um professor do segundo ou do terceiro ciclo, que desconhece por completo as especificidades desses níveis de ensino. Em consequência, podem ser dadas como ordens para cumprir as maiores aberrações pedagógicas; como não há discussão, nem participação, e como a “autonomia” é sinónimo de impor de cima para baixo, pois se cumpra. Não importa se há desacordo, se há frustração e até revolta. O (ou a) presidente manda, o professor cumpre, através de outros professores: os coordenadores de estabelecimento ou os coordenadores de nível, ou aqueles que foram destacados para avaliar os colegas. Notemos que toda esta gente deixou já, em muitos agrupamentos, de ser eleita. Todos são nomeados, para exercer esses tão famigerados como ambicionados “cargos”, estando a transformar-se numa nova casta, dentro de cada escola.

Num contexto destes, como pode ser desenhado um projecto pedagógico, ou trocadas opiniões sobre o desenvolvimento de uma actividade, ou satisfeito um pedido de ajuda, perante as dificuldades sentidas numa sala de aula?

Quem vai aprender com quem? Quem vai partilhar com quem, quando se sabe que a visa seleccionar apenas alguns?

Na gíria capitalista, é frequente ouvir-se dizer: “O segredo é a alma do negócio”. É isso que este modelo de escola quer impor aos docentes e aos alunos?

Não é necessário perder-me em mais considerações. Os relatos que vou apresentar falam por si, provando, sobretudo, que:


· Mais grave que a burocracia, é o clima sem alma da escola desfigurada, sem democracia.

· Os professores do primeiro ciclo são, talvez, os mais laminados e os que mais sofrem as consequências da política da competitividade adaptada à escola.


Que saudades eu tenho de tirar as minhas dúvidas!


São 26 alunos, do 3º e 4º ano. Três com necessidades educativas especiais.

Os meus tempos de trabalho com eles são de 45 minutos, entrecortados pelas AECs, pelos intervalos e o tempo para o almoço. Este, também não é sempre à mesma hora.

Com um horário assim – fragmentado e variável ao longo da semana – como é que é possível levar estas crianças a interiorizar hábitos temporais de organização, a adquirir rotinas diárias, algumas delas com dificuldades acrescidas nestas áreas, com é o caso da criança autista que faz parte da turma?

Coloquei este problema à vice-presidente, que é do 1º ciclo; logo, tem obrigação de saber as especificidades deste grau de ensino; esta respondeu-me: – “O que é que tu queres? A presidente exige assim.”

Querem obrigar-nos a trabalhar para a nossa avaliação e não para o processo de aprendizagem e sucesso dos nossos alunos.

Esta presidente esquece-se que os professores, quando saem da escola, trazem consigo os seus alunos. Esquece-se que não somos apenas professores, temos que ser educadores, mães, técnicos de serviço social. Tenho que levar todos os dias o pequeno-almoço para um menino, que vem sempre em jejum.

Eu sou pela exigência, pelo trabalho rigoroso. Penso que aqueles que forem baldas têm que ser chamados à atenção e têm que modificar o seu comportamento, para bem dos seus alunos da escola e deles próprios. Mas essa avaliação necessária, é aquela que se faz a partir do cumprimento dos nossos deveres profissionais, da nossa participação nas reuniões de preparação e organização das aulas, nos trabalhos que delas decorrem. É uma avaliação que tem a ver com a responsabilidade do trabalho, para ajudar os alunos a desenvolver-se em todas as dimensões.

O que é que isso tem a ver com irem vasculhar-me os meus planos diários? Amanhã vou faltar porque o meu filho vai ser hospitalizado para uma intervenção cirúrgica. Como é meu hábito, deixei os planos de aulas preparados para a colega que me vai substituir. Pois vieram vasculhá-los, para ver se estavam feitos e como estavam feitos. Será que não sou uma profissional? Não têm confiança em mim?

O mais grave é que esta função é desempenhada por alguém que, há menos de sete anos, entrava na minha sala e ficava embasbacada com o meu trabalho, pois nem sequer sabia como se fazia trabalho de texto.

Outro dia, fui à sede do Agrupamento para tratar de um assunto. Fiquei à porta da sala do Conselho Executivo. Então, ouvi estas palavras da presidente: “Esta avaliação é mesmo para doer, porque vai servir para mandar muita gente embora”.

É por isso que reina o medo. Todos se sentem intimidados.

Que saudados que tenho do tempo em que fazia perguntas à Teresa, para tirar as minhas dúvidas, para crescer no meu trabalho com os alunos. Como eu aprendi nesse tempo. Como me sentia bem!

Sim, era o tempo em que a turma desta colega – então com um 2º ano de escolaridade – entrosava, no plano curricular da sua turma, os projectos apresentados pela Coordenação das bibliotecas municipais de Oeiras, e a que aderiam as escolas. Na nossa escola trabalharam todas as turmas do 2º e 3º anos de escolaridade. Em conjunto com os artistas do MUS-E, num trabalho coordenado e dinamizado pela equipa da biblioteca escolar. Nessa altura, os alunos da Joana desenvolveram e consolidaram a sua leitura inicial, a partir do livro “O Rouxinol do Imperador”, de Hans Christian Andersen. Todos liam, escreviam, cantavam, desenhavam e encenavam aquela história. Com a intervenção dos artistas do MUS-E – cujo projecto de actividade entrosava também no plano curricular de cada turma e no plano de Actividades da Escola – o resultado de toda actividade das crianças foi transformado numa deliciosa opereta.

Não é assim que se pode aprender português, música e, ao mesmo tempo, ficar com um gosto imenso pelas leituras de Anderson, bem como pelos valores humanistas que delas transpiram?

É a pensar nesta Escola que já aconteceu, a pensar nestas crianças cujo futuro nós queremos ajudar a abrir, que se arranja força para não desistir.

(Depoimento de uma docente do 1º Ciclo, Outubro de 2008)


Ensino fragmentado, num período de desenvolvimento global


É um conceito adquirido, e até agora não contestado, que o processo de desenvolvimento de uma criança é global – sobretudo na primeira, segunda e terceira infâncias, período que abarca o jardim-de-infância e o primeiro ciclo do ensino básico. Portanto, o seu processo de aprendizagem deve ser organizado de forma globalizante, com as disciplinas articuladas, tanto quanto possível, no quadro de um projecto curricular, no qual é muito importante a existência de temas aglutinadores, a partir dos quais de possam desenvolver todas as práticas – da língua portuguesa às áreas de expressão, do estudo do meio à matemática e à música.

É partindo desta compreensão que a Lei de Bases do Sistema Educativo consagra o regime da mono-docência, para o primeiro ciclo do ensino básico. Assim cada turma é assegurada por um só professor – o professor titular da mesma – que deverá ser coadjuvado por professores com formação específica noutras áreas, como a Música ou a Educação física.

Não pode compreender-se, assim, que o horário de uma criança deste nível de ensino seja, em muitos agrupamentos, organizado em blocos de 45 minutos, assegurados por um professor ou animador de cada uma das actividades agora denominadas de enriquecimento curricular (AECs), fora de qualquer acompanhamento ou articulação com o plano curricular da turma, da responsabilidade do professor titular da mesma. Chega a acontecer que as disciplinas de Português e Matemática estejam contempladas num horário depois das 15 horas.

Como os professores não têm o direito de contestar estes horários – altamente perniciosos para uma criança de seis ou oito anos de idade –, nem esta soma de disciplinas, cada uma com o seu professor, mesmo aberrantes, estão a ser postos em prática.

Será bom para uma criança desta idade começar na escola às 9 horas e acabar por ter aulas de Português e Matemática no período do dia que deveria ser ocupado com actividades de fruição, tão livres quanto possível?


O paradoxo

De um lado os quadros interactivos, do outro a discriminação para a visita a um museu


As escolas do primeiro ciclo – entregues desde há muito às autarquias, em termos de edifícios, de equipamentos e de manutenção, bem como de serviços sociais – foram sempre o parente pobre do sistema de ensino. Assim, estas áreas já estavam muito dependentes dos critérios, bem como dos recursos, de cada concelho. Também muitos dos recursos existentes, tal como as práticas, estavam muito ligadas à capacidade de organização e de iniciativa das suas equipas educativas. Foi através das dinâmicas destas, que se conseguiam muitos recursos, e, por vezes, autênticos milagres de gestão, permitindo pôr em prática projectos inovadores.

No concelho de Oeiras, os docentes destas escolas conseguiram que a autarquia assumisse a distribuição de verbas específicas que garantissem a aquisição de tinteiros para as impressoras de todas as salas de aula.

Hoje, existem escolas onde os tinteiros têm que ser comprados e pagos pelos professores.

Os docentes organizavam pequenas cooperativas com os seus alunos, nas suas salas de aula. Eram os alunos que as geriam, que recebiam o dinheiro, faziam os registos e toda a contabilidade. Com estas pequenas quantias – que estas crianças aprendiam a gerir, ao mesmo tempo que adquirindo laços de grupo e de entreajuda – era possível ter um pequeno fundo de maneio para comprar um material para fazer uma prenda ou, mesmo, garantir alguns euros para pagar a viagem de um ou dois alunos que não podiam pagá-la.

Há agrupamentos onde esta prática foi, pura e simplesmente, proibida. Ao mesmo tempo, não existe margem de liberdade para que um professor ou equipa de professores se bata por conseguir as verbas necessárias que o Agrupamento não está em condições de garantir. Aliás, mesmo que tivesse essa margem, não tinha tempo, pois cada um está completamente absorvido de tarefas pós-lectivas, sobretudo com o seu processo de avaliação, tal como os professores dos outros graus de ensino.

Conclusão: as crianças não podem realizar visitas de estudo ou, então, vão umas e ficam outras, porque não puderam pagar alguns euros.

Estas situações, altamente discriminatórias, acontecem no concelho de Oeiras, em contradição com a existência de quadros interactivos, até em jardins-de-infância do mesmo concelho.


Onde está a liberdade de ensinar?


Existem escolas onde os planos de aulas são da responsabilidade da Coordenadora de nível. Esta elabora-os, e todas as outras colegas os põem em prática, com os mesmos calendários. Se, porventura, uma das docentes entendeu que a matéria – planeada para um determinado dia – precisa de ser mais trabalhada, para passar ao patamar seguinte, ela não o poderá fazer. Não é permitido escrever num sumário: “consolidação da matéria da aula anterior”, em nome de que todos terão que ir ao mesmo passo.


A frustração


Nunca trabalhei tanto… para os frutos serem tão poucos! Os Conselhos executivos não nos dão valor. Desde que acabaram com as equipas do Ensino especial, a nível concelhio, e cada professor do Ensino especial passou para a dependência de cada Agrupamento, perdemos o norte.

(Professora do ensino especial)


O cansaço e a desilusão


Primeiro do que tudo, tenho que defender a minha saúde física. Não tenho condições para me preocupar mais com o que está a passar-se na escola.

Quando os pais perceberem que a escola não pode ser apenas um armazém com o desenho muito bem feito para que o resultado formalmente dê certo, quando a escola bater no fundo, então todos verão o que tem estado a ser feito.

(Professor doutorado, que escolheu o primeiro ciclo por opção)


A prepotência


“Para o próximo ano lectivo vou poder desmanchar este núcleo. Cada professora vai para a escola do Agrupamento que eu entender.” (O núcleo é o conjunto de docentes de uma das diversas escolas do primeiro ciclo agrupadas no mesmo Agrupamento. Como os professores estão unidos naquela escola, é preciso dividi-los).

“Quem manda sou eu; vocês não têm senão de obedecer.”

(Afirmações de um vice-presidente de um Agrupamento do concelho de Oeiras)


Ignorância audaciosa


“Para avaliar um professor de música qualquer um serve.”

“Sou pela ditadura. A democracia só serve para atrapalhar.”

“Pensem bem antes de irem à manifestação. Cuidado com a avaliação!”

(Afirmações de uma presidente de um Conselho executivo)


Carmelinda Pereira (CDEP)

terça-feira, novembro 18, 2008

Desobediência ao pesadelo burocrático

O pesadelo burocrático e a desobediência à lei

11.11.2008 - 16h20

“O facto de os cidadãos estarem em geral dispostos a recorrer à desobediência civil

justificada é um elemento de estabilidade numa sociedade bem ordenada, ou seja, quase

justa”


John Rawls, Uma Teoria da Justiça


Tenho 48 anos e sou professor do ensino secundário há quase 26. Sou professor titular

de Filosofia, não estou sindicalizado, não me recordo de ter faltado ao trabalho, mesmo

em dias de greve, e não costumo participar em manifestações – nem sequer participei nas

duas últimas grandes manifestações de professores, se bem que tenha pena de não o ter

podido fazer. Nunca me passou pela cabeça ter outra actividade profissional, mesmo

ganhando mais do que os 1850 euros que, após todos estes anos, recebo no final do

mês.

Sei que para ensinar bem os meus alunos tenho de continuar a estudar, a ler e a

aprender. Como costuma dizer um amigo meu, Desidério Murcho, para se ensinar bem

até à letra C é preciso dominar as matérias até pelo menos à letra M: é preciso um grande

à vontade e um bom domínio do que se ensina para se antecipar dificuldades dos alunos,

para se responder a dúvidas inesperadas, para se encontrar o exemplo certeiro, para

indicar as leituras adequadas, etc. Isto exige uma grande preparação e uma actualização

permanente do professor, além de um ambiente de trabalho tranquilo e estimulante. Até

porque são as deficiências científicas que originam, na maior parte da vezes, as situações

pedagogicamente mais desagradáveis.

Infelizmente, os escassos estímulos que ainda poderiam existir nesse sentido parecem

pertencer ao passado. As escolas transformaram-se, de há dois anos para cá, numa

balbúrdia constante e num verdadeiro pesadelo burocrático em que ninguém parece

entender-se. E, com muita tristeza minha, vejo os livros de filosofia que todas as semanas

encomendo na Amazon ou outras livrarias acumular-se sem quase ter tempo para os

folhear. Preparar aulas decentemente é algo que também deixei de fazer, caso contrário

nem sequer vida familiar poderia ter. Não fosse o caso de os alunos estudarem por um

manual que conheço de cor – porque sou um dos seus autores – e as aulas seriam um

completo improviso. Comparar o que se tem passado nas escolas nos últimos dois anos

com a barafunda gerada com o atraso da colocação de professores no tempo do ministro

David Justino é como comparar um episódio infeliz com a própria infelicidade. E o ministro

David Justino caiu por causa disso.

Creio poder dizer, sem qualquer exagero nem arrogância, que conheço melhor do que a

senhora ministra o que se passa nas escolas, pois há 25 anos que passo a maior parte

da minha vida nelas. Ora, nunca, mas mesmo nunca, houve tanta confusão e um

ambiente tão pouco adequado ao ensino e à aprendizagem como o que se verifica

actualmente.

Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas

aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda

ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o

sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. Na

verdade são muito mais as horas que tenho gasto a reunir por causa da avaliação do que

com aulas. E o pior ainda nem sequer chegou. Como avaliador de oito colegas, terei de

inventar mais 36 horas para assistir a aulas suas, além das reuniões preparatórias que

tenho de fazer com cada um deles e dos quilos de papelada para preencher. De resto, na

minha escola os professores irão passar o ano a assistir às aulas uns dos outros, pois

somos 165 professores, o que dá cerca de 500 aulas assistidas por ano. Além disso, terei

de preparar tudo para o meu avaliador – um colega de Economia que não tem culpa de

nada e que fará certamente o seu melhor – poder assistir às minhas aulas de Filosofia.

Que o novo modelo de avaliação é inútil e ineficaz já o provou definitivamente, sem o

querer, a senhora ministra. Diz ela repetidamente que esta avaliação é absolutamente

necessária para a qualidade do ensino e para a melhoria dos resultados. Porém, anunciou

com grande pompa ao país que os resultados melhoraram no último ano, o que acabou

por ser reforçado com a divulgação dos resultados dos exames nacionais. Só que esta

apregoada melhoria da qualidade e dos resultados verificou-se ainda antes de o modelo

de avaliação produzir qualquer efeito. Logo, fica provado que a avaliação não é uma

condição necessária para a melhoria da qualidade e dos resultados. O que leva então a

ministra a dizer que a avaliação é absolutamente necessária?

Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente,

querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos

e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares,

documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc.,

frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil

fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase

literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro. A obsessão do ministério por

controlar tudo e todos até ao mais pequeno detalhe está bem patente no modelo de fichas

de avaliação que impõe às escolas e aos professores (parece que a ideia é a de que,

entre tanta coisa pedagogicamente inane, sempre há-de haver uns quantos aspectos em

que o avaliado vai falhar, de modo a não atrapalhar as escassas cotas disponíveis para

progressão na carreira). E o mais irónico é que, quando se encontram incoerências e

impasses nas instruções oriundas do ministério, a ministra deixa o problema para as

próprias escolas com o argumento de que lhes quer dar autonomia na construção dos

seus instrumentos de avaliação. Não é, pois, surpreendente que os professores se sintam

desorientados, cansados, chantageados e até insultados. Isso acaba naturalmente por se

reflectir na sua prática lectiva e os alunos notam bem a diferença quando o professor dá

as aulas cansado.

Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai

permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra

alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando

arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não

fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado

para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente

estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo,

além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de

pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de

aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano. Esse dogma é o da

pedagogia do eduquês: são os resultados a qualquer preço, é a inovação a martelo, são

as “estratégias de ensino-aprendizagem” como se o professor fosse o aprendiz (também o

é, mas noutro sentido). Enfim, é a avaliação do portfólio e dossiê do professor para ver se

ele tem o seu caderno diário em ordem, infantilizando uma actividade em que, pelo

contrário, se exige autonomia e auto-confiança.

De resto, não é preciso muita atenção para ser confrontado com essa novilíngua do

eduquês que, de há muitos anos para cá, tem caracterizado o Ministério da Verdade. Só

que agora passou a ter uma força imparável, pois vai ser a destreza no uso dessa

novilíngua a determinar se o professor é dos bons ou dos maus. Esta é, sem dúvida, a

avaliação do pior eduquês em todo o seu esplendor. É um enorme passo para a asfixia

intelectual dos professores e para a sua menoridade profissional. E é a negação da

desejável diversidade pedagógica, transformando os professores em meros instrumentos

de uma cadeia de produção em série e impedindo os alunos de se enriquecer no contacto

com diferentes estilos e metodologias.

Mas o que realmente importa no desempenho do professor é, respeitando os alunos e os

seus direitos, ensinar-lhes e ajudá-los a aprender o que é suposto aprenderem,

recorrendo às concepções pedagógicas que muito bem se entender. É relativamente fácil

apurar se o professor soube realmente ensinar e se os alunos conseguiram realmente

aprender, independentemente da metodologia usada e das concepções pedagógicas em

jogo, desde que os seus alunos realizem no final do percurso exames bem concebidos. E

se se ponderarem os resultados dos exames comparando-os com a média de cada

disciplina nas respectivas escolas, estamos muito próximos de um sistema de avaliação

muito mais justo, simples, eficaz e dignificante para todos. Claro que para isso era preciso

haver mais exames, além de melhores programas e de mais formação de professores,

coisas que não parecem interessar minimamente a senhora ministra.

Assim, tudo indica que quando a senhora ministra afirma totalitariamente que ou se aplica

o seu modelo ou não há outro, só pode estar a fazer chantagem, o termo que utiliza para

descrever o comportamento dos sindicatos junto dos professores, como se os professores

fossem idiotas. A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os

professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios

sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o

ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento

dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam

de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar

uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar

como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das

escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se

abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal. Isso só ainda não é mais

notório porque os efeitos das políticas educativas só se tornam evidentes passados vários

anos. Por isso é arrepiante ver a senhora ministra insistir – contra tudo e contra todos os

que, em Portugal, já alguma vez revelaram interesse pelas questões da educação – numa

teimosia própria de mentes obstinadas e dogmáticas. E é também por isso um imperativo

de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande

importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes

circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e

culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se

aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra,

pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser.

*Professor titular de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão