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quarta-feira, dezembro 10, 2008

PROmova - operação «Escolas do lado certo»

PROmova.jpg

Face à intransigência, à incoerência, à insensatez e à absoluta perda de credibilidade desta equipa ministerial, o Movimento PROmova lança a operação nacional "ESCOLAS DO LADO CERTO", destinada à amplificação e ao registo das escolas/agrupamentos que decidem não proceder à entrega dos objectivos individuais ou não participar em qualquer acto relacionado com este modelo de avaliação (na sua versão simplicomplexificada).
Se o Ministério da Educação já não dispõe da lucidez e do sentido de responsabilidade que lhe possibilite substituir as aberrações consubstanciadas neste modelo de avaliação e na divisão arbitrária da carreira, então fazem-no os professores, colectivamente, em cada escola/agrupamento.
Embora o PROmova não descure a sua associação e apoio a outras formas de contestação pública, como greves e manifestações, considera, todavia, que o caminho da dignidade dos professores constrói-se na resistência interna e na coragem histórica de, em uníssono, os professores recusarem a implementação de leis absurdas e injustas. A ética está acima do legalismo torpe e impositivo! Espreitem a história (mesmo a do PS) e verifiquem se não está!...
Sem os custos monetários das greves e sem o cansaço que as manifestações podem gerar, as armas dos professores são: "NÃO ENTREGAMOS" / "NÃO PARTICIPAMOS".

E entre as "ESCOLAS DO LADO CERTO" estão:

A Escola Secundária da Ramada - Odivelas (professores recusam a entrega dos objectivos individuais)

MOÇÃO


Com conhecimento a:
Presidência da República, Governo da República, Procuradoria da República, Plataforma Sindical,
Grupos Parlamentares, DREL, Órgãos de Comunicação Social.
Assunto: Avaliação de Desempenho Docente

Os professores da Escola Secundária da Ramada, reunidos em 12 de Novembro de 2008,
justificam a sua tomada de posição no que respeita à suspensão do processo de avaliação do
desempenho em curso nos termos e com os fundamentos seguintes:
1. A aplicação do modelo previsto no Decreto-Regulamentar n.º 2/2008 tem-se revelado
inexequível, por ser inviável praticá-lo segundo critérios de rigor, imparcialidade e justiça
exigidos pelos professores desta escola.
2. O modelo de avaliação de desempenho aprovado pelo decreto supracitado não está orientado
para a qualificação do serviço docente, como um dos caminhos a trilhar para a melhoria da
qualidade da Educação, enquanto serviço público.
3. O modelo de avaliação instituído pelo referido Decreto-Regulamentar destina-se, sobretudo, a
institucionalizar uma cadeia hierárquica dentro das escolas e a dificultar ou, mesmo, a impedir
a progressão dos professores na sua carreira.
4. O estabelecimento de quotas na avaliação e a criação de duas categorias que, só por si,
determinam que mais de 2/3 dos docentes não chegarão ao topo da carreira, completam a
orientação exclusivamente economicista em que se enquadra o actual estatuto da carreira
docente que inclui o modelo de avaliação decretado pelo ME.
5. Paradoxalmente, a aplicação do actual modelo de avaliação de desempenho está a prejudicar
o trabalho docente dos professores e educadores por via da despropositada carga burocrática
e das inúmeras reuniões que exige.
6. A maioria dos itens constantes das fichas não é passível de ser aplicada universalmente. Com
efeito, alguns só se aplicam a um número reduzido de professores. Outros, pelo seu grau de
subjectividade, ressentem-se de um problema estrutural – não existem quadros de referência
em função dos quais seja possível promover a objectividade da avaliação do desempenho.
7. O desenvolvimento do processo com vista à avaliação de desempenho não respeita o que
determinam os artigos 8º e 14º, do próprio Decreto-Regulamentar n.º 2/2008, uma vez que o
Regulamento Interno, o Projecto Educativo e o Plano Anual de Actividades não se encontram
aprovados por forma a enquadrar os seus princípios, objectivos, metodologias e prazos.
8. É evidente um clima de contestação e indignação dos professores e educadores, bem como a
degradação do ambiente de trabalho entre pares.
9. O próprio Conselho Científico da Avaliação dos Professores (estrutura criada pelo ME) nas
suas recomendações critica aspectos centrais do modelo de avaliação de desempenho, tais
como a utilização feita pelas escolas dos instrumentos de registo, a utilização dos resultados
dos alunos, o abandono escolar e a observação de aulas, como itens de avaliação.
10.Suspender o processo de avaliação permitirá: (i) recentrar a atenção dos professores naquela
que é a sua primeira e fundamental missão – ensinar; (ii) que os professores se preocupem
prioritariamente com quem devem – os seus alunos; (iii) antecipar em alguns meses a
negociação de um outro modelo de avaliação de desempenho docente, quando já estão
em circulação outras propostas diferentes e surgidas do meio sindical.
Face ao exposto, os professores desta escola decidiram, por maioria significativa,
suspender a participação neste processo de Avaliação de Desempenho, não entregando
objectivos individuais, não solicitando a observação de aulas e suspendendo as actividades da
Comissão de Coordenação da Avaliação de Desempenho, até que se proceda a uma revisão
concertada do mesmo, que o torne exequível, justo, transparente, ou seja, capaz de contribuir
realmente para o fim que supostamente persegue, uma Escola Pública de qualidade.

Ramada, 17 de Novembro de 2008

terça-feira, novembro 18, 2008

Desobediência ao pesadelo burocrático

O pesadelo burocrático e a desobediência à lei

11.11.2008 - 16h20

“O facto de os cidadãos estarem em geral dispostos a recorrer à desobediência civil

justificada é um elemento de estabilidade numa sociedade bem ordenada, ou seja, quase

justa”


John Rawls, Uma Teoria da Justiça


Tenho 48 anos e sou professor do ensino secundário há quase 26. Sou professor titular

de Filosofia, não estou sindicalizado, não me recordo de ter faltado ao trabalho, mesmo

em dias de greve, e não costumo participar em manifestações – nem sequer participei nas

duas últimas grandes manifestações de professores, se bem que tenha pena de não o ter

podido fazer. Nunca me passou pela cabeça ter outra actividade profissional, mesmo

ganhando mais do que os 1850 euros que, após todos estes anos, recebo no final do

mês.

Sei que para ensinar bem os meus alunos tenho de continuar a estudar, a ler e a

aprender. Como costuma dizer um amigo meu, Desidério Murcho, para se ensinar bem

até à letra C é preciso dominar as matérias até pelo menos à letra M: é preciso um grande

à vontade e um bom domínio do que se ensina para se antecipar dificuldades dos alunos,

para se responder a dúvidas inesperadas, para se encontrar o exemplo certeiro, para

indicar as leituras adequadas, etc. Isto exige uma grande preparação e uma actualização

permanente do professor, além de um ambiente de trabalho tranquilo e estimulante. Até

porque são as deficiências científicas que originam, na maior parte da vezes, as situações

pedagogicamente mais desagradáveis.

Infelizmente, os escassos estímulos que ainda poderiam existir nesse sentido parecem

pertencer ao passado. As escolas transformaram-se, de há dois anos para cá, numa

balbúrdia constante e num verdadeiro pesadelo burocrático em que ninguém parece

entender-se. E, com muita tristeza minha, vejo os livros de filosofia que todas as semanas

encomendo na Amazon ou outras livrarias acumular-se sem quase ter tempo para os

folhear. Preparar aulas decentemente é algo que também deixei de fazer, caso contrário

nem sequer vida familiar poderia ter. Não fosse o caso de os alunos estudarem por um

manual que conheço de cor – porque sou um dos seus autores – e as aulas seriam um

completo improviso. Comparar o que se tem passado nas escolas nos últimos dois anos

com a barafunda gerada com o atraso da colocação de professores no tempo do ministro

David Justino é como comparar um episódio infeliz com a própria infelicidade. E o ministro

David Justino caiu por causa disso.

Creio poder dizer, sem qualquer exagero nem arrogância, que conheço melhor do que a

senhora ministra o que se passa nas escolas, pois há 25 anos que passo a maior parte

da minha vida nelas. Ora, nunca, mas mesmo nunca, houve tanta confusão e um

ambiente tão pouco adequado ao ensino e à aprendizagem como o que se verifica

actualmente.

Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas

aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda

ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o

sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. Na

verdade são muito mais as horas que tenho gasto a reunir por causa da avaliação do que

com aulas. E o pior ainda nem sequer chegou. Como avaliador de oito colegas, terei de

inventar mais 36 horas para assistir a aulas suas, além das reuniões preparatórias que

tenho de fazer com cada um deles e dos quilos de papelada para preencher. De resto, na

minha escola os professores irão passar o ano a assistir às aulas uns dos outros, pois

somos 165 professores, o que dá cerca de 500 aulas assistidas por ano. Além disso, terei

de preparar tudo para o meu avaliador – um colega de Economia que não tem culpa de

nada e que fará certamente o seu melhor – poder assistir às minhas aulas de Filosofia.

Que o novo modelo de avaliação é inútil e ineficaz já o provou definitivamente, sem o

querer, a senhora ministra. Diz ela repetidamente que esta avaliação é absolutamente

necessária para a qualidade do ensino e para a melhoria dos resultados. Porém, anunciou

com grande pompa ao país que os resultados melhoraram no último ano, o que acabou

por ser reforçado com a divulgação dos resultados dos exames nacionais. Só que esta

apregoada melhoria da qualidade e dos resultados verificou-se ainda antes de o modelo

de avaliação produzir qualquer efeito. Logo, fica provado que a avaliação não é uma

condição necessária para a melhoria da qualidade e dos resultados. O que leva então a

ministra a dizer que a avaliação é absolutamente necessária?

Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente,

querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos

e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares,

documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc.,

frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil

fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase

literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro. A obsessão do ministério por

controlar tudo e todos até ao mais pequeno detalhe está bem patente no modelo de fichas

de avaliação que impõe às escolas e aos professores (parece que a ideia é a de que,

entre tanta coisa pedagogicamente inane, sempre há-de haver uns quantos aspectos em

que o avaliado vai falhar, de modo a não atrapalhar as escassas cotas disponíveis para

progressão na carreira). E o mais irónico é que, quando se encontram incoerências e

impasses nas instruções oriundas do ministério, a ministra deixa o problema para as

próprias escolas com o argumento de que lhes quer dar autonomia na construção dos

seus instrumentos de avaliação. Não é, pois, surpreendente que os professores se sintam

desorientados, cansados, chantageados e até insultados. Isso acaba naturalmente por se

reflectir na sua prática lectiva e os alunos notam bem a diferença quando o professor dá

as aulas cansado.

Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai

permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra

alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando

arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não

fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado

para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente

estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo,

além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de

pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de

aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano. Esse dogma é o da

pedagogia do eduquês: são os resultados a qualquer preço, é a inovação a martelo, são

as “estratégias de ensino-aprendizagem” como se o professor fosse o aprendiz (também o

é, mas noutro sentido). Enfim, é a avaliação do portfólio e dossiê do professor para ver se

ele tem o seu caderno diário em ordem, infantilizando uma actividade em que, pelo

contrário, se exige autonomia e auto-confiança.

De resto, não é preciso muita atenção para ser confrontado com essa novilíngua do

eduquês que, de há muitos anos para cá, tem caracterizado o Ministério da Verdade. Só

que agora passou a ter uma força imparável, pois vai ser a destreza no uso dessa

novilíngua a determinar se o professor é dos bons ou dos maus. Esta é, sem dúvida, a

avaliação do pior eduquês em todo o seu esplendor. É um enorme passo para a asfixia

intelectual dos professores e para a sua menoridade profissional. E é a negação da

desejável diversidade pedagógica, transformando os professores em meros instrumentos

de uma cadeia de produção em série e impedindo os alunos de se enriquecer no contacto

com diferentes estilos e metodologias.

Mas o que realmente importa no desempenho do professor é, respeitando os alunos e os

seus direitos, ensinar-lhes e ajudá-los a aprender o que é suposto aprenderem,

recorrendo às concepções pedagógicas que muito bem se entender. É relativamente fácil

apurar se o professor soube realmente ensinar e se os alunos conseguiram realmente

aprender, independentemente da metodologia usada e das concepções pedagógicas em

jogo, desde que os seus alunos realizem no final do percurso exames bem concebidos. E

se se ponderarem os resultados dos exames comparando-os com a média de cada

disciplina nas respectivas escolas, estamos muito próximos de um sistema de avaliação

muito mais justo, simples, eficaz e dignificante para todos. Claro que para isso era preciso

haver mais exames, além de melhores programas e de mais formação de professores,

coisas que não parecem interessar minimamente a senhora ministra.

Assim, tudo indica que quando a senhora ministra afirma totalitariamente que ou se aplica

o seu modelo ou não há outro, só pode estar a fazer chantagem, o termo que utiliza para

descrever o comportamento dos sindicatos junto dos professores, como se os professores

fossem idiotas. A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os

professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios

sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o

ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento

dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam

de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar

uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar

como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das

escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se

abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal. Isso só ainda não é mais

notório porque os efeitos das políticas educativas só se tornam evidentes passados vários

anos. Por isso é arrepiante ver a senhora ministra insistir – contra tudo e contra todos os

que, em Portugal, já alguma vez revelaram interesse pelas questões da educação – numa

teimosia própria de mentes obstinadas e dogmáticas. E é também por isso um imperativo

de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande

importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes

circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e

culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se

aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra,

pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser.

*Professor titular de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão

quarta-feira, novembro 12, 2008

Desobediência Civil

[jornal Público ]
O pesadelo burocrático e a desobediência à lei
11.11.2008 - 16h20 Aires Almeida *

“O facto de os cidadãos estarem em geral dispostos a recorrer à desobediência civil justificada é um elemento de estabilidade numa sociedade bem ordenada, ou seja, quase justa”

John Rawls, Uma Teoria da Justiça

Tenho 48 anos e sou professor do ensino secundário há quase 26. Sou professor titular de Filosofia, não estou sindicalizado, não me recordo de ter faltado ao trabalho, mesmo em dias de greve, e não costumo participar em manifestações – nem sequer participei nas duas últimas grandes manifestações de professores, se bem que tenha pena de não o ter podido fazer. Nunca me passou pela cabeça ter outra actividade profissional, mesmo ganhando mais do que os 1850 euros que, após todos estes anos, recebo no final do mês.

Sei que para ensinar bem os meus alunos tenho de continuar a estudar, a ler e a aprender. Como costuma dizer um amigo meu, Desidério Murcho, para se ensinar bem até à letra C é preciso dominar as matérias até pelo menos à letra M: é preciso um grande à vontade e um bom domínio do que se ensina para se antecipar dificuldades dos alunos, para se responder a dúvidas inesperadas, para se encontrar o exemplo certeiro, para indicar as leituras adequadas, etc. Isto exige uma grande preparação e uma actualização permanente do professor, além de um ambiente de trabalho tranquilo e estimulante. Até porque são as deficiências científicas que originam, na maior parte da vezes, as situações pedagogicamente mais desagradáveis.

Infelizmente, os escassos estímulos que ainda poderiam existir nesse sentido parecem pertencer ao passado. As escolas transformaram-se, de há dois anos para cá, numa balbúrdia constante e num verdadeiro pesadelo burocrático em que ninguém parece entender-se. E, com muita tristeza minha, vejo os livros de filosofia que todas as semanas encomendo na Amazon ou outras livrarias acumular-se sem quase ter tempo para os folhear. Preparar aulas decentemente é algo que também deixei de fazer, caso contrário nem sequer vida familiar poderia ter. Não fosse o caso de os alunos estudarem por um manual que conheço de cor – porque sou um dos seus autores – e as aulas seriam um completo improviso. Comparar o que se tem passado nas escolas nos últimos dois anos com a barafunda gerada com o atraso da colocação de professores no tempo do ministro David Justino é como comparar um episódio infeliz com a própria infelicidade. E o ministro David Justino caiu por causa disso.

Creio poder dizer, sem qualquer exagero nem arrogância, que conheço melhor do que a senhora ministra o que se passa nas escolas, pois há 25 anos que passo a maior parte da minha vida nelas. Ora, nunca, mas mesmo nunca, houve tanta confusão e um ambiente tão pouco adequado ao ensino e à aprendizagem como o que se verifica actualmente.

Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. Na verdade são muito mais as horas que tenho gasto a reunir por causa da avaliação do que com aulas. E o pior ainda nem sequer chegou. Como avaliador de oito colegas, terei de inventar mais 36 horas para assistir a aulas suas, além das reuniões preparatórias que tenho de fazer com cada um deles e dos quilos de papelada para preencher. De resto, na minha escola os professores irão passar o ano a assistir às aulas uns dos outros, pois somos 165 professores, o que dá cerca de 500 aulas assistidas por ano. Além disso, terei de preparar tudo para o meu avaliador – um colega de Economia que não tem culpa de nada e que fará certamente o seu melhor – poder assistir às minhas aulas de Filosofia.

Que o novo modelo de avaliação é inútil e ineficaz já o provou definitivamente, sem o querer, a senhora ministra. Diz ela repetidamente que esta avaliação é absolutamente necessária para a qualidade do ensino e para a melhoria dos resultados. Porém, anunciou com grande pompa ao país que os resultados melhoraram no último ano, o que acabou por ser reforçado com a divulgação dos resultados dos exames nacionais. Só que esta apregoada melhoria da qualidade e dos resultados verificou-se ainda antes de o modelo de avaliação produzir qualquer efeito. Logo, fica provado que a avaliação não é uma condição necessária para a melhoria da qualidade e dos resultados. O que leva então a ministra a dizer que a avaliação é absolutamente necessária?

Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro. A obsessão do ministério por controlar tudo e todos até ao mais pequeno detalhe está bem patente no modelo de fichas de avaliação que impõe às escolas e aos professores (parece que a ideia é a de que, entre tanta coisa pedagogicamente inane, sempre há-de haver uns quantos aspectos em que o avaliado vai falhar, de modo a não atrapalhar as escassas cotas disponíveis para progressão na carreira). E o mais irónico é que, quando se encontram incoerências e impasses nas instruções oriundas do ministério, a ministra deixa o problema para as próprias escolas com o argumento de que lhes quer dar autonomia na construção dos seus instrumentos de avaliação. Não é, pois, surpreendente que os professores se sintam desorientados, cansados, chantageados e até insultados. Isso acaba naturalmente por se reflectir na sua prática lectiva e os alunos notam bem a diferença quando o professor dá as aulas cansado.

Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo, além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano. Esse dogma é o da pedagogia do eduquês: são os resultados a qualquer preço, é a inovação a martelo, são as “estratégias de ensino-aprendizagem” como se o professor fosse o aprendiz (também o é, mas noutro sentido). Enfim, é a avaliação do portfólio e dossiê do professor para ver se ele tem o seu caderno diário em ordem, infantilizando uma actividade em que, pelo contrário, se exige autonomia e auto-confiança.

De resto, não é preciso muita atenção para ser confrontado com essa novilíngua do eduquês que, de há muitos anos para cá, tem caracterizado o Ministério da Verdade. Só que agora passou a ter uma força imparável, pois vai ser a destreza no uso dessa novilíngua a determinar se o professor é dos bons ou dos maus. Esta é, sem dúvida, a avaliação do pior eduquês em todo o seu esplendor. É um enorme passo para a asfixia intelectual dos professores e para a sua menoridade profissional. E é a negação da desejável diversidade pedagógica, transformando os professores em meros instrumentos de uma cadeia de produção em série e impedindo os alunos de se enriquecer no contacto com diferentes estilos e metodologias.

Mas o que realmente importa no desempenho do professor é, respeitando os alunos e os seus direitos, ensinar-lhes e ajudá-los a aprender o que é suposto aprenderem, recorrendo às concepções pedagógicas que muito bem se entender. É relativamente fácil apurar se o professor soube realmente ensinar e se os alunos conseguiram realmente aprender, independentemente da metodologia usada e das concepções pedagógicas em jogo, desde que os seus alunos realizem no final do percurso exames bem concebidos. E se se ponderarem os resultados dos exames comparando-os com a média de cada disciplina nas respectivas escolas, estamos muito próximos de um sistema de avaliação muito mais justo, simples, eficaz e dignificante para todos. Claro que para isso era preciso haver mais exames, além de melhores programas e de mais formação de professores, coisas que não parecem interessar minimamente a senhora ministra.

Assim, tudo indica que quando a senhora ministra afirma totalitariamente que ou se aplica o seu modelo ou não há outro, só pode estar a fazer chantagem, o termo que utiliza para descrever o comportamento dos sindicatos junto dos professores, como se os professores fossem idiotas. A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal. Isso só ainda não é mais notório porque os efeitos das políticas educativas só se tornam evidentes passados vários anos. Por isso é arrepiante ver a senhora ministra insistir – contra tudo e contra todos os que, em Portugal, já alguma vez revelaram interesse pelas questões da educação – numa teimosia própria de mentes obstinadas e dogmáticas. E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser.

*Professor titular de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão